Quando meu pai faleceu em setembro de 2006, procurei insistentemente por alguma coisa que me fizesse esquecer e seguir em frente. Perder alguém que te incentive, que te guie é muito difícil, por mais coisas que eu fizesse nada me faria superar tamanha perda. Até que em um inusitado domingo a Jú me chamou pra ir à quadra da Águia de Ouro, que fica no bairro da Pompéia. Seria estranho demais ir a uma quadra tão distante (tecnicamente), pois perto de minha casa tenho “n” opções de escolas de samba (todas tradicionais), mesmo assim decidi aceitar o convite e ver aquela batucada contagiante de que todos falavam.
Ao chegarmos embaixo do viaduto, a movimentação era intensa, pois estávamos já em outubro e o carnaval seria no início de fevereiro, muitas famílias freqüentam a escola que recebe de braços abertos quem a visita. Encantei-me em ver como pessoas que nem sequer nos conhecem sejam receptivas e calorosas. Para este carnaval, a escola falaria das manifestações artísticas de artesanato, e da cultura popular, o tema é sugestivo, pois afinal o carnaval é uma dessas manifestações.
Antes do esquentar dos surdos e tamborins, acontecia uma animada roda de pagode no palco, com músicas que remetiam um passado não muito distante, e que me faziam lembrar meu velinho que eu acabara de perder, aquele sentimento mix de tristeza, felicidade e lembrança me fez ficar muito a vontade e sentir que há tempos eu era íntimo de todas aquelas pessoas.
Exatamente as 20h36 minutos, Juca, o mestre daquela batucada maravilhosa (não digo isso porque já desfilei pela escola, mas porque já era fã daquela batucada) apitou chamando os componentes para que o ensaio começasse. A cada convenção, a cada paradinha ou desenho, meu coração que já tinha sentido aquela sensação (não vou dizer o nome da escola por motivos óbvios) pulsava, pulava, como se fosse um compromisso, um chamado, designo que eu devesse seguir, me senti estranho por pensar que tal sensação tomasse conta de mim novamente. Acompanhamos o ensaio entusiasmados com o andamento cadenciado da bateria, e da letra do samba que meses depois seria ovacionado na avenida, mas isso é assunto para um novo post.
Ao terminar o ensaio, já não me agüentava e tinha de perguntar como fazer parte daquela grande família, num primeiro momento me senti receoso, pois sei que a maioria das baterias paulistas já tem seu time formado muito antes do carnaval por conta dos ensaios e coreografias para que o desfile não perca seu brilho.
Após conversas com o Luciano (diretor dos tamborins) e com o próprio mestre Juca, acertamos que nos finais de semana seguintes eu entraria na escolinha de bateria e quiçá poderia fazer parte daquele time de ritmistas. Já no primeiro domingo de ensaio na escolinha, fiquei no ensaio da noite para tocar com a bateria principal, fiquei tão nervoso que até quebrei a baqueta enquanto suava frio para não errar nenhuma subida, nenhum desenho, dar o meu melhor e conseguir o trunfo de desfilar na escola de samba que havia se transformado na “paixão de São Paulo”.
Desde que eu havia começado em novembro de 2006 o tempo havia passado como um Ferrari nas retas de Interlagos, os ensaios tensos como devem ser para que nada saia errado, as pessoas e o bom ambiente contribuiu para que tudo corresse perfeitamente, o dia do desfile se aproximava e a paixão arrebatadora que caiu sobre mim aumentava. A cada frase dos samba exaltação, da letra do samba, me fazia crer que havia um motivo para continuar e que a vida tinha muito sentido.
Foram dois anos de emoções (positivas e negativas), muitos amigos, muitas broncas, viagens, apresentações que me fizeram crer que um pavilhão é tão importante quanto à família que temos amá-lo e respeitar significa ver o seu coração bater forte mesmo quando você está distante vendo um vídeo no youtube ou ouvindo seus sambas em mp3, é uma pena que estejamos tão compromissados com o trabalho e o capitalismo que não tenhamos tempo para curtir e aproveitar momentos que são pequenos, mas muito valiosos.
Não preciso nem dizer que este será o meu eterno pavilhão e não o troco por nada e nem por nenhuma outra agremiação, não importa se já são 13 campeonatos, ou se a escola é do time do meu coração, o mais importante é saber que você ama uma escola que respeita seus componentes e cobra de maneira clara e límpida que você tem de ser fiel ao que acredita.
Águia de Ouro, eu sou e sempre serei, não importa o que digam, mesmo distante, eu sempre vou amar você!
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