Sexta feira! Como de costume, peguei minha mochila e me despedi de todo o escritório rumo ao bar da esquina. Toda sexta era assim: despedida rápida e sem muita conversa, afinal de contas já tagarelava o bastante de segunda a quinta e especialmente àquela sexta teria que voar beber o meu choppinho e ir ao encontro de Helena, que naquele dia especialmente seria pedida em casamento. A tarde tinha um bonito azul nos céus e com o horário de verão podíamos contemplar mais um pouco daquele bonito dia de sol e calor que nos matava dentro das salas úmidas a 10°C do escritório de advocacia mais badalado da cidade de São Paulo.
Não queria perder um minuto afinal de contas casamento é para uma vez na vida, mas especialmente naquela sexta feira o céu tinha cores que eu nunca havia visto talvez não por não parar para vê-lo todos os dias, vivendo atabalhoado com processos que deixam qualquer um de cabelos em pé, ou talvez porque quando criança adorava sentar ao muro de casa apreciando o cair do dia e o raiar da noite enquanto mamãe preparava o lanche da noite.
Todos os dias era assim, trabalho, faculdade, copo de leite e cama, quem sabe com as responsabilidades da vida perdi ao longo dos anos a generosidade da natureza de contemplar um belo por do sol, ou um dia de chuva, porque quando chove nesta cidade caótica eu tenho vontade de explodir. Passam das 17h35, eu já devia estar à porta do bar com meu copinho à mão, um bolinho de bacalhau na outra e uma porção de assuntos relacionados ao futebol e aquelas baboseiras de homem revirando minhas faculdades mentais, mas eu estava ali, parado à esquina da Avenida Paulista, cruzamento com a Consolação, contemplando aquele pôr do sol esplendoroso, e imaginando todos os momentos felizes de minha ingrata vida, que foi construída com muito suor e luta, mas que se perdia em não aproveitar momentos como aquele.
A hora voou e quando dei por mim eram mais de 18h00, o transito como sempre parou naquele movimentado cruzamento e as pessoas iam e vinham desatentas ao espetáculo que o céu proporcionava. Umas preocupadas como eu com as mazelas da vida e com suas misturas para o final de semana e outras apressadas em fugir da ferveção caótica que vira a Paulista ao cair da sexta feira, eu já estava atrasado e mesmo assim não conseguia me mover, contagiado com o movimento cósmico das estrelas que surgiam no céu e no lento movimento que fazia com que a lua se tornasse maior e mais envolvente.
Depois de contemplar todo aquele mágico momento me dei conta que muitas vezes temos de dar valor às coisas que parecem insignificantes, mas que na realidade significam muito diante de olhos que enxergam apenas o que os outros querem que enxerguemos. Comecei a caminhar com a certeza de que outras sextas-feiras como essa certamente ocorreriam, pois ali não perdi apenas momentos olhando sem destino para o imenso céu e sim ganhei oportunidades diversas de resgatar uma vida que ficou exaurida a papéis, processos e casos sem solução.
E para quem pensou que este causo terminaria sem final feliz se enganou, porque Helena aceitou meu pedido de casamento e hoje somos um casal muito feliz e que adora contemplar os finais de tarde, mesmo aqueles com o céu nublado ou com torrenciais temporais de verão, mas isso é assunto para uma outra história....
Comunicado de mudança...
Há 15 anos
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